sábado, 20 de abril de 2013

O HOMEM E A SUA VIDA NA TERRA


O HOMEM E A SUA VIDA NA TERRA
Estudo com base no livro O Que é o Espiritismo, Cap. III - Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita, O Homem durante a vida terrestre,
itens de 129 à 134.
Obra de Allan Kardec
Pesquisa: Elio Mollo


Deus não criou o mal, a lei natural é a Sua lei (1). O homem traz na consciência a lei de Deus (2). Se a observasse fielmente, seria perfeitamente feliz, pois essa lei é a única necessária à felicidade do homem. Essa lei escrita na consciência do homem lhe indica o que ele deve ou não fazer e ele só se torna infeliz quando não a observa. O Espírito, tendo seu livre arbítrio, nem sempre a observa, com isso, se envolve com o mal (geralmente gerado pelo egoísmo extremado), e isso resulta em infrações a essa lei que com o tempo tem que reparar para poder voltar ao bom caminho (3).

Fazendo a distinção entre a alma e o homem, podemos dizer que a alma (espírito elementar ou princípio inteligente) (4) é criada simples e ignorante (5), quer dizer, nem boa nem má, mas suscetível, em virtude do seu livre arbítrio, de tomar o caminho do bem ou o do mal, ou melhor dizendo, de observar ou infringir as leis de Deus. O homem nasce bom ou mau conforme seja a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado.

A origem do mal sobre a Terra resulta da imperfeição dos Espíritos que nela estão encarnados. A predominância do mal decorre de que, sendo a Terra um mundo inferior, a maioria dos Espíritos que a habitam são, eles mesmos, inferiores, ou progrediram pouco. Em mundos mais avançados, o homem terrestre, por sua evolução, naturalmente, não teria condições de se encarnar, pois nesses mundos onde vivem Espíritos depurados, o mal já não faz mais parte deles.

A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas (6), razão por que aí vive o homem a braços com tantas misérias. Assim, pode ser considerada, ao mesmo tempo, como um mundo de educação para os Espíritos pouco avançados, e de expiação para os Espíritos que infligiram a lei natural. Os males da Humanidade são a consequência da inferioridade moral da maioria dos Espíritos encarnados. Pelo contato dos seus vícios, eles se tornam reciprocamente infelizes e se punem uns aos outros.

Podemos figurar Terra como um subúrbio, um hospital, uma penitenciaria, um sítio malsão. Assim podemos compreender por que as aflições sobrelevam aos gozos, porquanto não se mandam para o hospital os que se acham com saúde, nem para as casas de correção os que nenhum mal praticaram; nem os hospitais e as casas de correção se podem ter por lugares de deleite. Da mesma maneira que numa cidade, a população não se encontra toda nos hospitais ou nas prisões, também na Terra não está a Humanidade inteira. Assim, do hospital só saem os que se curaram, da prisão só saem os que cumpriram suas penas. O homem só deixará de viver em mundos semelhantes a Terra, quando estiver curado de suas enfermidades morais. (6)

Para aquele que vê tudo pela vida presente, e que acredita ser única, ver um homem mau prosperar e o de bem ser alvo de muitas aflições, isso deve lhe parecer uma soberana injustiça. Contudo, não ocorre o mesmo para aquele que considera a pluralidade das existências, para este, cada existência é uma brevidade em relação à eternidade. O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do mau terá terríveis consequências nas existências seguintes; que as aflições do homem de bem são, ao contrário, seguidas de uma felicidade tanto maior e durável quanto ele as procura enfrentar com sabedoria e resignação, assim, para ele, uma existência com dificuldades é como se fosse apenas um momento infeliz (contudo, de grandes aprendizados) diante da eternidade.

Como prova de aprendizado ou de expiação uns poderão nascer na indigência e outros na opulência, cegos, surdos, mudos ou atacados de enfermidades incuráveis, enquanto que outros poderão ter todas as vantagens físicas. Isso não é efeito do acaso nem da Providência. Se é efeito da Providência, pergunta-se onde está sua bondade e sua justiça? Ora, é por não compreenderem a causa desses males, que muitas pessoas são levadas a acusá-la. Compreende-se que aquele que se torna miserável ou enfermo por suas imprudências ou seus excessos, seja punido por onde errou; mas se a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo, que fez ela para merecer semelhantes aflições, desde o seu nascimento, ou para delas estar isenta? Se se admite a justiça de Deus, deve-se admitir que esse efeito tenha uma causa, sendo assim, se essa causa não está nesta vida, deve ser de antes dela, porque em todas as coisas, a causa deve preceder o efeito; por isso, é preciso, pois, que a alma tenha vivido e que tenha merecido uma expiação. Os estudos espíritas nos mostram, com efeito, que a maioria dos homens que nasceram na miséria, foram ricos e considerados em uma existência anterior, mas, fizeram mau uso da fortuna que Deus lhe deu para gerir, também, foram descorteses, orgulhosos e poderosos, agora, numa existência posterior, a vida no-los mostram, às vezes submetido às ordens daquele mesmo ao qual comandou com dureza, sob os maus tratos e a humilhação que fez os outros suportarem.

O castigo é o aguilhão que estimulará a alma, pela amargura, a se dobrar sobre si mesma e a buscar o porto de salvação (7). O castigo é temporário e só tem por fim a reabilitação, a redenção. O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que fique sem a correspondente punição. A severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta. Indeterminada é a duração do castigo, para qualquer falta; fica subordinada ao arrependimento do culpado e ao seu retorno a senda do bem; a pena dura tanto quanto a obstinação no mal; seria perpétua, se perpétua fosse a obstinação; dura pouco, se pronto é o arrependimento. Desde que o culpado clame por misericórdia, Deus o ouve e lhe concede a esperança. Mas, não basta o simples pesar do mal causado; é necessária a reparação, pelo que o culpado se vê submetido a novas provas em que pode, sempre por sua livre vontade, praticar o bem, reparando o mal que haja feito. (8)

Nem sempre uma vida penosa é uma expiação, frequentemente, é uma prova escolhida pelo Espírito, que tem por objetivo avançar mais rapidamente, se a suportar com coragem. A riqueza é também uma prova, porém, mais perigosa que a da miséria, pelas tentações que oferece e os abusos que provoca. Relatos dos próprios Espíritos que a viveram mostram que diante da tentação da riqueza dificilmente consegue-se sair vitorioso.

A diferença de posições sociais seria a maior das injustiças, quando não resulta da conduta da vida atual, se ela não devesse ter uma compensação. É a convicção que se adquire desta verdade pelo Espiritismo, que dá a força para suportar as vicissitudes da vida e aceitar a sorte sem invejar a dos outros.

NOTAS

(1) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro terceiro, itens 614 e 630.
(2) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro terceiro, item 621.
(3) Podemos dizer que o homem segue o bom caminho quando se deixa conduzir pela lei natural ou lei de Deus escrita na sua consciência; e o do mal quando egoisticamente pensa em si mesmo desprezando o que lhe diz a consciência. (Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro terceiro, item 621 e 630.)
(4) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro primeiro, item 23 e O que é o Espiritismo, cap. II, Dos Espíritos, item 14 e nota de A. Kardec.
(5) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro segundo, Progressão dos Espíritos, item 115.
(6) Ver Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap, III.
(7) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, livro quarto, item 1009, Paulo, o apóstolo.
(8) Ver Allan Kardec, O Evangelho segundo o Espiritismo, XXVII - Pedi e obtereis - item 21.

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domingo, 14 de abril de 2013

O EGOÍSMO


O EGOÍSMO
Estudo com base in O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, Perfeição Moral,
Capítulo XII, itens de 913 à 917.
Obra codificada por Allan Kardec
Pesquisa: Elio Mollo
Em 12/04/2013


Entre os vícios, que podemos considerar radical é o egoísmo. Dele deriva todo o mal. Se estudarmos todos os vícios veremos que no fundo de todos existe egoísmo. Por mais que lutemos contra eles não chegaremos a extirpá-los enquanto não os atacarmos pela raiz, enquanto não houvermos destruído a causa. Então, que todos os nossos esforços tendam para esse fim, porque nele se encontra a verdadeira chaga da sociedade. Quem nesta vida quiser se aproximar da perfeição moral deve extirpar do seu coração todo sentimento de egoísmo, porque é incompatível com a justiça, o amor e a caridade e ele neutraliza todas as outras qualidades. 

Estando o egoísmo fundado no interesse pessoal, parece difícil extirpá-lo inteiramente do coração do homem, contudo, à medida que os homens se esclarecem sobre as coisas espirituais, darão menos valor às materiais, assim, é necessário reformar as instituições humanas, que o entretêm e o excitam. Isso depende da educação.

Todos os Espíritos mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana. A origem do mal sobre a Terra resulta da imperfeição dos Espíritos que aí estão encarnados. A predominância do mal decorre de que, sendo a Terra um mundo inferior, a maioria dos Espíritos que a habitam são, eles mesmos, inferiores, ou progrediram pouco (1). Porém, se entendermos que o egoísmo é inerente à espécie humana e consequentemente o nosso mal maior, isso é engano, na verdade, ele se liga à inferioridade dos Espíritos encarnados na Terra e não à Humanidade em si mesma. Ora, os Espíritos se purificando através das encarnações sucessivas, irão perdendo o egoísmo assim como perdem as outras impurezas.

Quanto maior é o egoísmo, mais horrível a situação se torna, sendo assim, é necessário que ele produza muito mal para fazer compreender a necessidade de sua extirpação.

Quando os homens tiverem se livrado do egoísmo que os domina viverão como irmãos. Não fazendo mais o mal se ajudarão reciprocamente pelo sentimento fraterno de solidariedade. Então o forte será o apoio e não o opressor do fraco e não mais se verá homens desprovidos do necessário, porque todos praticarão a lei da justiça.

A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um (2) é esses direitos são determinados por duas coisas: a lei humana e a lei natural. Como os homens fizeram leis apropriadas aos seus costumes e ao seu caráter, essas leis estabeleceram direitos que podem variar com o progresso. Se observamos atentamente as nossas leis de hoje, sem serem perfeitas, consagram os mesmos direitos que as da Idade Média. Se esses direitos já superados nos parecem hoje monstruosos, naquela época, pareciam justos e naturais. O direito dos homens, portanto, nem sempre é conforme à justiça. Só regula algumas relações sociais, enquanto na vida privada há uma infinidade de atos que são de competência exclusiva do tribunal da consciência. (3) Afinal a Lei (Natural) de Deus está escrita na consciência de cada um. (4)

Em todas as épocas houveram homens com a missão de nos fazer lembrar dessa Lei. São Espíritos superiores, cujo objetivo principal, é o de fazer progredir a Humanidade (5) para que o reino do bem apareça em sua plenitude, fazendo que o mal fruto do egoísmo desapareça.

De todas as imperfeições humanas, a mais difícil de desenraizar é o egoísmo, porque se liga à influência da matéria, da qual o homem, ainda muito próximo da sua origem, não pode libertar-se. Tudo concorre para entreter essa influência; suas leis, sua organização social, sua educação. O egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a vida material, e sobretudo com a compreensão que o Espiritismo nos oferece quanto ao nosso estado futuro real e não desfigurado pelas ficções alegóricas. O Espiritismo bem compreendido, quando estiver identificado com os costumes e as crenças, transformará os hábitos, as usanças e as relações sociais. O egoísmo se funda na importância da personalidade, ora, o Espiritismo bem compreendido faz ver as coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece de alguma forma perante a imensidade. Ao destruir essa importância, ou pelo menos ao fazer ver a personalidade naquilo que de fato ela é, ele combate necessariamente o egoísmo. 

É o contato que o homem experimenta do egoísmo dos outros que o torna geralmente egoísta, porque sente a necessidade de se pôr na defensiva. Vendo que os outros pensam em si mesmos e não nele, é levado a ocupar-se de si mesmo mais que dos outros. Que o princípio da caridade e da fraternidade seja a base das instituições sociais, das relações legais de povo para povo e de homem para homem, e este pensará menos em si mesmo quando vir que os outros o fazem; sofrerá, assim, a influência moralizadora do exemplo e do contato. Em face do atual desdobramento do egoísmo é necessária uma verdadeira virtude para abdicar da própria personalidade em proveito dos outros, que em geral não o reconhecem. Não há ninguém que não possa fazer o bem: somente o egoísta não encontra jamais a ocasião de praticá-lo. É suficiente estar em relação com outros homens para se poder fazer o bem, e cada dia da vida oferece essa possibilidade a quem não estiver cego pelo egoísmo; porque fazer o bem não é apenas ser caridoso, mas ser útil na medida do possível, sempre que o auxílio se faça necessário. (6)

Louváveis esforços são feitos, sem dúvida, para ajudar a Humanidade a avançar; encorajam-se, estimulam-se, honram-se os bons sentimentos, hoje mais do que em qualquer outra época, e não obstante o verme devorador do egoísmo continua a ser a praga social. É um verdadeiro mal que se espalha por todo o mundo e do qual cada um é mais ou menos vítima. É necessário combatê-lo, portanto, como se combate uma epidemia. Para isso, deve-se proceder à maneira dos médicos: remontar à causa. Que se pesquisem em toda a estrutura da organização social, desde a família até aos povos, da choupana ao palácio, todas as causas, as influências patentes ou ocultas que excitam, entretêm e desenvolvem o sentimento do egoísmo. Uma vez conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si mesmo; só restará então combatê-las, senão a todas ao mesmo tempo, pelo menos por parte, e pouco a pouco o veneno será extirpado. A cura poderá ser prolongada porque as causas são numerosas, mas não se chegará a esse ponto se não se atacar o mal pela raiz, ou seja, com a educação. Não essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas a que tende a fazer homens de bem. A educação, se for bem compreendida, será a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres como se conhece a de manejar as inteligências, poder-se-á endireitá-los, da mesma maneira como se endireitam as plantas novas (7). Essa arte, porém, requer muito tato, muita experiência e uma profunda observação. É um grave erro acreditar que basta ter a ciência para aplicá-la de maneira proveitosa. Quem quer que observe, desde o instante do seu nascimento, o filho do rico como o do pobre, notando todas as influências perniciosas que agem sobre ele em consequência da fraqueza, da incúria e da ignorância dos que o dirigem, e como em geral os meios empregados para moralizar fracassam, não pode admirar-se de encontrar no mundo tanta confusão. Que se faça pela moral tanto quanto se faz pela inteligência e ver-se-á que há naturezas refratárias, há também, em maior número do que se pensa, as que requerem apenas boa cultura para darem bons frutos. (8). 

O homem quer ser feliz e esse sentimento está na sua própria natureza; eis por que ele trabalha sem cessar para melhorar a sua situação na Terra e procura as causas de seus males para os remediar. Quando compreender bem que o egoísmo é uma dessas causas, aquela que engendra o orgulho, a ambição, a cupidez, a inveja, o ódio, o ciúme, dos quais a todo momento ele é vítima, que leva a perturbação a todas as relações sociais, provoca as dissensões, destrói a confiança, obrigando-o a se manter constantemente numa atitude de defesa em face ao seu vizinho, e que, enfim, do amigo faz um inimigo, então ele compreenderá também que esse vício é incompatível com a sua própria felicidade. Acrescentaremos que é incompatível com a sua própria segurança. Dessa maneira, quanto mais sofrer mais sentirá a necessidade de o combater, como combate a peste, os animais daninhos e todos os outros flagelos. A isso será solicitado pelo seu próprio interesse. (9).

O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade é a fonte de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra deve ser alvo de todos os esforços do homem, se ele deseja assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro.

NOTAS:

(1) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 872 e O que é o Espiritismo, cap. III, O Homem Durante a Vida Terrestre, item 131
(2) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 875.
(3) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 875a.
(4) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 621.
(5) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 622.
(6) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 643.
(7) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro segundo, item 383 e Revista Espírita de fevereiro de 1864, Primeiras Lições de Moral da Infância.
(8) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 872.
(9) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Livro terceiro, item 874.

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

INFLUÊNCIA OCULTA DOS ESPÍRITOS SOBRE OS NOSSOS PENSAMENTOS E AS NOSSAS AÇÕES.


INFLUÊNCIA OCULTA DOS ESPÍRITOS SOBRE OS NOSSOS PENSAMENTOS E AS NOSSAS AÇÕES.
Estudo com base in O Livro dos Espíritos, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo, Capítulo IX, itens de 456 à 472. .
Obra codificada por Allan Kardec
Pesquisa: Elio Mollo
Em 09/04/2013


Livres da matéria, os Espíritos usam o pensamento para se comunicarem entre si e com os encarnados. Para eles o pensamento é tudo. (1). Quando o pensamento está em algum lugar, a alma está também, uma vez que é a alma que pensa. O pensamento é um atributo da alma. (2)

Os Espíritos podem, muitas vezes, conhecer os nossos pensamentos mais secretos, principalmente, aquilo que desejaríamos ocultar a nós mesmos; nem atos, nem pensamentos podem ser dissimulados para eles.  Assim sendo, pareceria mais fácil ocultar-se uma coisa a uma pessoa viva, pois não o podemos fazer a essa mesma pessoa depois de morta, pois quando nos julgamos bem escondidos, temos muitas vezes ao nosso lado uma multidão de Espíritos que nos veem. 

A ideia que fazem de nós, os Espíritos que estão ao nosso redor e nos observam, depende da capacidade evolutiva do observador, assim, os Espíritos levianos riem das pequenas traquinices que nos fazem, e zombam das nossas impaciências. Os Espíritos sérios lamentam as nossas trapalhadas e tratam de nos ajudar. 

Os Espíritos influem sobre os nossos pensamentos e as nossas ações, e nesse sentido, a influência deles é maior do que podemos supor, porque muito frequentemente são eles que nos dirigem. 

Temos pensamentos próprios e outros que nos são sugeridos, ou seja, a nossa alma é um Espírito que pensa e não podemos ignorar que muitos pensamentos nos ocorrem, a um só tempo, sobre o mesmo assunto e frequentemente bastante contraditórios. Pois bem: nesse conjunto há sempre os nossos e os dos Espíritos, e é isso o que nos deixa na incerteza, porque temos em nós duas ideias que se combatem. Para distinguir os nossos próprios pensamentos dos que nos são sugeridos, temos que, quando um pensamento nos é sugerido, é como uma voz que nos fala. Os pensamentos próprios são, em geral, os que nos ocorrem no primeiro impulso. De resto, não há grande interesse para nós nessa distinção, e é frequentemente útil não o sabermos, assim, o homem pode agir mais livremente e, se decidir pelo bem, o fará de melhor vontade, e se tomar o mau caminho a sua responsabilidade será maior. 

Os homens de inteligência e de gênio, algumas vezes, as ideias surgem de seu próprio Espírito, mas frequentemente lhes são sugeridas por outros Espíritos, que os julgam capazes de as compreender e dignos de as transmitir. Quando eles não as encontram em si mesmos, apelam para a inspiração; é uma evocação que fazem, sem o suspeitar.

Se fosse útil que pudéssemos distinguir claramente os nossos próprios pensamentos daqueles que nos são sugeridos, Deus nos teria dado o meio de fazê-lo, como nos deu o de distinguir o dia e a noite. Quando uma coisa permanece vaga é que assim deve ser para o nosso bem.

O primeiro impulso pode ser bom ou mau, segundo a natureza do Espírito encarnado. É sempre bom para aquele que ouve as boas inspirações.

Para distinguir se um pensamento sugerido vem de um bom ou de um mau Espírito, devemos aprender que os bons Espíritos não aconselham senão o bem, assim, cabe a nós distinguir e escolher. 

Os Espíritos imperfeitos nos induzem ao mal com a intenção de nos fazer sofrer como eles, ou seja, eles o fazem por inveja dos seres mais felizes e porque ainda se sentem pertencer a uma ordem inferior e estarem com a consciência pesada a lhe cobrarem a reparação dos seus erros. 

Também podemos dizer que os espíritos imperfeitos são os instrumentos destinados a experimentar a fé e a constância dos homens no bem. Nós, como Espíritos, devemos progredir na ciência do infinito, e é por isso que passamos pelas provas do mal até chegarmos ao bem.

A missão dos bons Espíritos é a de nos porem no bom caminho, e quando más influências agem sobre nós, somos nós mesmos que as chamamos, pelo desejo do mal, porque os Espíritos inferiores, também, vêm em nosso auxílio para nos fazer praticar o mal quando temos a vontade de o cometer. (3) Assim, se somos inclinado ao assassínio, teremos uma nuvem de Espíritos ainda voltados ao mal fortalecendo esse pensamento em nós, contudo, quando temos a vontade de fazer o bem, também, teremos junto a nós, Espíritos bons que tratarão de nos influenciar para o bem, isso faz com que se reequilibre a balança, assim, Deus deixa à nossa consciência a escolha da rota que devemos seguir, e a liberdade de ceder a uma ou a outra das influências contrárias que se exercem sobre nós.

O homem pode se afastar da influência dos Espíritos que o incitam ao mal, porque eles só se ligam aos que os solicitam por seus desejos ou os atraem por seus pensamentos. 

Os Espíritos cuja influência é repelida pela vontade (4) do homem renunciam às suas tentativas, ou seja, quando nada têm para fazerem, abandonam o campo. Não obstante, espreitam o momento favorável, como o gato espreita o rato. 

O melhor meio para neutralizar a influência dos maus Espíritos e fazendo o bem e colocando toda a nossa confiança em Deus, assim, repelimos a influência dos Espíritos inferiores e destruímos o império que desejam ter sobre nós. Devemos evitar de dar ouvidos as sugestões dos Espíritos que suscitam em nós os maus pensamentos, que insuflam a discórdia e excitam em nós todas as más paixões. Desconfiemos sobretudo daqueles que exaltam o nosso orgulho, porque eles aproveitam das nossas fraquezas. Eis porque Jesus nos ensinou através da oração dominical: "Senhor, não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal!" 

Nenhum Espírito recebe a missão de fazer o mal; quando ele o faz, é pela sua própria vontade e consequentemente terá de sofrer as consequências (5). Deus pode deixá-lo fazer para nos provar, mas jamais o ordena, assim, cabe a nós afastar essa espécie de Espirito. 

Quando experimentamos um sentimento de angústia, de ansiedade indefinível, ou de satisfação interior sem causa conhecida, isso pode ser consequência de um efeito das comunicações que, sem o saber, tivemos com os Espíritos, ou das relações que tivemos com eles durante o sono. 

Os Espíritos que desejam incitar-nos ao mal aproveitam a circunstância, mas frequentemente a provocam, empurrando-nos sem o percebermos para o objeto da nossa ambição. Assim, por exemplo, um homem encontra no seu caminho uma certa quantia: não acreditemos pois que foram os Espíritos que puseram o dinheiro ali, mas eles podem dar ao homem o pensamento de se dirigir naquela direção, e então lhe sugerem apoderar-se dele, enquanto outros lhe sugerem devolver o dinheiro ao dono. Acontece o mesmo em todas as outras tentações.

NOTAS:

(1) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, item 100, Escala Espírita.

(2) Ver Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, item 89a, Forma e Ubiquidade dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, primeira parte, cap. II, item 7..

(3) Ver Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. VI, item 100, questão 11.

(4) A vontade não é uma entidade, uma substância e nem mesmo uma propriedade da matéria mais eterizada: é o atributo essencial do Espírito, ou seja, do ser pensante. (Ver Allan Kardec, O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. VIII, Laboratório do Mundo Invisível, item 131.)

(5) Diz o texto francês: "et par conséquent il en subit les conséquences". Em geral, nas traduções, procura- se corrigir a repetição. Preferimos respeitá-la, mesmo porque nos parece destinada a dar ênfase ao fato. (Nota. de J. Herculano Pires)

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terça-feira, 9 de abril de 2013

O SONO E OS SONHOS


O SONO E OS SONHOS
Estudo com base in O Livro dos Espíritos,
cap. VIII, Emancipação da Alma, Itens de 400 à 412
Obra codificada por Allan Kardec
Pesquisa: Elio Mollo
Em 08/04/2013


Sono (do latim somnu, com o mesmo significado) é um estado ordinário de consciência, complementar ao da vigília (ou estado desperto), em que há repouso normal e periódico, caracterizado, tanto no ser humano como nos outros vertebrados, pela suspensão temporária da atividade perceptivo-sensorial e motora voluntária. (1)

O sono natural é a suspensão momentânea da vida de relação. Entorpecimento dos sentidos durante o qual são interrompidas as relações da alma com o mundo exterior por meio dos órgãos. (2)

Dizer que o Espírito encarnado permanece voluntariamente no envoltório corporal é como perguntar se o prisioneiro está satisfeito sob as chaves. O Espírito encarnado aspira incessantemente à libertação, e quanto mais grosseiro é o envoltório, mais deseja ver-se desembaraçado.

Durante o sono, a alma não repousa como o corpo, pois o Espírito jamais fica inativo. Durante o sono, os liames que o unem ao corpo se afrouxam e o corpo não necessita do Espírito. Então ele percorre o espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.

Pelo sonho. Quando o corpo repousa, o Espírito dispõe de mais faculdades que no estado de vigília. Tem a lembrança do passado e às vezes a previsão do futuro; adquire mais poder e pode entrar em comunicação com os outros Espíritos, seja deste mundo, seja de outro. É comum dizermos ou ouvir dizer: "Tive um sonho bizarro, um sonho horrível, mas que não tem nenhuma verossimilhança". Puro engano. É quase sempre uma lembrança de lugares e de coisas que vimos ou que veremos numa outra existência ou em outra ocasião. O corpo estando adormecido, o Espírito trata de quebrar as suas cadeias para investigar no passado ou no futuro.

 O sonho é o efeito da emancipação da alma durante o sono. Quando os sentidos ficam entorpecidos os laços que unem o corpo e a alma se afrouxam. Nesse estado a alma torna-se mais livre e recupera em parte suas faculdades de Espírito entrando mais facilmente em comunicação com os seres do mundo espiritual. A recordação que ela conserva ao despertar, do que viu em outros lugares e em outros mundos, ou em suas existências passadas, constitui o sonho propriamente dito. Sendo esta recordação apenas parcial, quase sempre incompleta e entremeada com recordações do estado de vigília, resultando com isso, uma concatenação produzindo esses conjuntos estranhos que parecem sem sentido, pouco mais ou menos como seria a narração à qual se houvessem truncado, aqui e ali, fragmentos de linhas ou de frases. (2)

O que é que fazemos quando dormimos; o que são os sonhos?

O sono liberta parcialmente a alma do corpo. Quando o homem dorme, momentaneamente se encontra no estado em que estará de maneira permanente após a morte. Os Espíritos que logo se desprendem da matéria, ao morrerem, tiveram sonhos inteligentes. Esses Espíritos, quando dormem, procuram a sociedade dos que lhes são superiores: viajam, conversam e se instruem com eles; trabalham mesmo em obras que encontram concluídas, ao morrer.

Isto, para os Espíritos elevados; pois a massa dos homens que, com a morte, devem permanecer longas horas nessa perturbação, nesse estado de incerteza, vão, seja a mundos inferiores à Terra, onde antigas afeições os chamam, seja à procura de prazeres talvez ainda mais baixos do que possuíam aqui; vão beber doutrinas ainda mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que as que professavam quando encarnados. E o que engendra a simpatia na Terra não é outra coisa senão o fato de sentirem, ao acordar, ligados pelo coração daqueles com quem acabam de passar oito ou nove horas de felicidade ou de prazer. O que explica também as antipatias invencíveis é que sentem, no fundo do coração, que essas pessoas têm uma consciência diversa da sua, porque as conhecem sem jamais as terem visto. É ainda o que explica a indiferença, pois não procuram fazer novos amigos quando sabem ter os que os amam e os querem. Numa palavra: o sono influi muito mais do que imaginamos, sobre as nossas vidas.

Por efeito do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos, e é isso o que faz que os Espíritos superiores consintam, sem muita repulsa, em encarnar-se em nosso meio.

O sono é a porta que Deus nos abriu para o contato com os nossos amigos espirituais; é o recreio após o trabalho, enquanto esperamos o grande livramento, a libertação final, que deve restituir-nos ao nosso verdadeiro meio.

Destes fatos podemos aprender a não ter medo da morte, pois, pelo sono, morremos todos os dias, segundo a expressão de um santo.

O sonho é a lembrança do que o nosso Espírito viu durante o sono; mas podemos observar que nem sempre sonhamos, porque nem sempre nos lembramos daquilo que vimos, ou de tudo o que vimos durante o sono. Isso porque a nossa alma não possui todo o desenvolvimento necessário, assim, frequentemente nos resta apenas a lembrança da perturbação que acompanha a nossa partida e a nossa volta, a que se junta a lembrança do que fizemos ou do que nos preocupa no estado de vigília. Isto, explica os sonhos absurdos a que estamos sujeitos tanto os mais sábios quanto os mais simples. Os maus Espíritos também se servem dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.

Na Revista Espírita de julho de 1865, Teoria dos Sonhos, podemos encontrar os sonhos divididos em três categorias caracterizadas pelo grau da lembrança gerado pelo estado de desprendimento no qual se acha o Espírito. São:

1º - Os sonhos que são provocados pela ação da matéria e dos sentidos sobre o Espírito, isto é, aqueles em que o organismo representa um papel preponderante pela mais íntima união entre o corpo e o Espírito. Nos lembramos claramente e, por pouco desenvolvida que seja a memória, dele conservamos uma impressão durável.

2º - Os sonhos que podem ser chamados mistos. Participam, ao mesmo tempo, da matéria e do Espírito. O desprendimento é mais completo. Nos recordamos ao despertar, para o esquecer quase que instantaneamente, a menos que uma particularidade venha despertar a lembrança.

3º - Os sonhos etéreos ou puramente espirituais. São produtos só do Espírito, que está desprendido da matéria, tanto quanto o pode estar na vida do corpo. Não nos recordamos, ou resta uma vaga lembrança de que se sonhou. Nenhuma circunstância poderia trazer à memória os incidentes do sono.

Outra espécie de sonho é como o sonho de Joana, o sonho de Jacó, o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos. Esse tipo de sonho é a lembrança da alma inteiramente liberta do corpo, a recordação dessa segunda vida de que há pouco tratamos.

Podemos dizer que os sonhos são o produto da emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida, que se estende aos lugares, os mais distantes ou que jamais se viu, e algumas vezes mesmo a outros mundos. Daí também a lembrança que retraça na memória os acontecimentos verificados na existência presente ou nas existências anteriores. A extravagância das imagens referentes ao que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeadas de coisas do mundo atual, formam esses conjuntos bizarros e confusos que parecem não ter nem senso, nem nexo.

A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas decorrentes da lembrança incompleta do que nos apareceu no sonho. Tal como um relato ao qual se tivessem truncado frases ou partes de frases ao acaso: os fragmentos restantes, sendo reunidos, perderiam toda significação racional.

Por que não nos recordamos sempre dos sonhos? Nisso que chamamos sono só temos o repouso do corpo, porque o Espírito está sempre em movimento. No sono, ele recobra um pouco de sua liberdade e se comunica com os que lhe são caros, seja neste ou em outros mundos. Mas, como o corpo é de matéria pesada e grosseira, dificilmente conserva as impressões recebidas pelo Espírito, mesmo porque o Espírito não as percebeu pelos órgãos do corpo.

Os sonhos não são verdadeiros, como entendem os ledores da sorte, pelo que é absurdo admitir que sonhar com uma coisa anuncia outra. Eles são verdadeiros no sentido de apresentarem imagens reais para o Espírito, mas que, frequentemente, não têm relação com o que se passa na vida corpórea. Muitas vezes ainda, são uma recordação. Podem ser, enfim, algumas vezes, um pressentimento do futuro, se Deus o permite, ou a visão do que se passa no momento em outro lugar, a que a alma se transporta. Temos numerosos exemplos de pessoas que aparecem em sonhos para advertir parentes e amigos do que lhes está acontecendo. Essas aparições, são a alma ou o Espírito dessas pessoas que se comunicam com os encarnados durante o sono. Quando adquirirmos a certeza de que aquilo que vimos realmente aconteceu, isso será uma prova de que a imaginação nada tem com o fato, sobretudo se o ocorrido absolutamente não estava no nosso pensamento durante a vigília.

Frequentemente se veem em sonhos coisas que parecem pressentimentos e que podem cumprir-se para o Espírito, apesar de não se cumprirem para o corpo. Quer dizer que o Espírito vê aquilo que deseja, porque vai procurá-lo. Não se deve esquecer que, durante o sono, a alma está sempre mais ou menos sob a influência da matéria, e, por conseguinte não se afasta jamais completamente das ideias. Disso resulta que as preocupações da vigília podem dar, àquilo que se vê, a aparência do que se deseja ou do que se teme. A isso é que realmente se pode chamar um efeito da imaginação. Quando se está fortemente preocupado com uma ideia, liga-se a ela tudo o que se vê.

Quando vemos em sonho pessoas vivas, que conhecemos perfeitamente, praticarem atos em que absolutamente não pensam, é que seus Espíritos podem visitar-nos, como nos emancipados pelo sono, também, podemos visita-los, e nem sempre sabemos o que pensam. Além disso, frequentemente aplicamos, a pessoas que conhecemos, e segundo os nossos desejos, aquilo que se passou em outras existências ou se passa nesta.

Não é necessário o sono completo, para a emancipação do Espírito. O Espírito recobra a sua liberdade quando os sentidos se entorpecem, assim, ele aproveita, para se emancipar, todos os instantes de descanso que o corpo lhe oferece. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, e quanto mais fraco estiver o corpo, mais o Espírito estará livre. É assim que o cochilar, ou um simples entorpecimento dos sentidos, apresenta muitas vezes as mesmas imagens do sonho.

Parece-nos, às vezes, ouvirmos em nosso íntimo palavras pronunciadas distintamente, e que não têm nenhuma relação com o que nos preocupa, e até mesmo frases inteiras, sobretudo quando os sentidos começam a se entorpecer. Isso pode ser o fraco eco de um Espírito que deseja comunicar-se conosco.

Muitas vezes, num estado que ainda não é o cochilo, quando temos os olhos fechados, vemos imagens distintas, figuras das quais apanhamos os pormenores mais minuciosos. Podemos dizer que em estando entorpecido o corpo, o Espírito trata de quebrar a sua cadeia, assim, ele se transporta e vê, e se o sono fosse completo, isso seria um sonho.

Têm-se às vezes, durante o sono ou o cochilo, ideias que parecem muito boas, e que, apesar dos esforços que se fazem para recordá-las, se apagam da memória. Essas ideias são o resultado da liberdade do Espírito, que se emancipa e goza, nesse momento, de mais amplas faculdades. Frequentemente, também, são conselhos dados por outros Espíritos. Podemos perguntar: De que servem essas ideias ou esses conselhos, se a sua recordação se perde e não se pode aproveitá-los? É que essas ideias pertencem, algumas vezes, mais ao mundo dos Espíritos que ao mundo corpóreo, mas o mais frequente é que se o corpo as esquece, o Espírito as lembra, e a ideia volta no momento necessário, como uma inspiração do momento.

O Espírito encarnado, nos momentos em que se desprende da matéria e age como Espírito, muitas vezes pressente a época de sua morte e às vezes tem dela uma consciência bastante clara, o que lhe dá, no estado de vigília, a sua intuição. É por isso que algumas pessoas preveem às vezes a própria morte com grande exatidão.

A atividade do Espírito, durante o repouso ou o sono do corpo, pode fatigar a este, isto acontece porque o Espírito está ligado ao corpo, como o balão cativo ao poste. Assim, da mesma maneira que as sacudidelas do balão abalam o poste, a atividade do Espírito reage sobre o corpo, e pode produzir-lhe fadiga.

NOTAS:


(2) Ver Allan Kardec, Instruções Práticas sobre as Manifestações, Vocabulário Espírita

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quinta-feira, 21 de março de 2013

POSSESSOS


POSSESSOS
Estudo com base in O Livro dos Espíritos, Cap. IX, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo, questões 473 e 474, obra codificada por Allan Kardec.
Pesquisa: Elio Mollo


Sobre a possessão respondem os Espíritos à Allan Kardec (1) que “O Espírito não entra num corpo como entras numa casa; ele se assimila a um Espírito encarnado que tem os seus mesmos defeitos e as suas mesmas qualidades, para agir conjuntamente; mas é sempre o Espírito encarnado que age como quer sobre a matéria de que está revestido. Um Espírito não pode substituir-se ao que se acha encarnado, porque o Espírito e o corpo estão ligados até o tempo marcado para o termo da existência material.” 

No caso de haver uma coabitação de dois Espíritos no mesmo corpo, a alma pode encontrar-se na dependência de um outro Espírito, de maneira a se ver por ele subjugada ou obsedada, ao ponto de ter a sua vontade, de alguma forma, paralisada, e são esses os verdadeiros possessos, mas essa dominação não se efetua jamais sem a participação daquele que sofre, seja por fraqueza, seja pelo seu desejo. Frequentemente se têm tomado por possessos criaturas epilépticas ou loucas, que mais necessitavam de médico do que de exorcismo. (2)

Em O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XXIII, Kardec assim se expressou em relação a possessão: “não existem possessos, no sentido vulgar do termo, mas apenas obsedados, subjugados e fascinados”.

Na Revista Espirita de outubro de 1858 (3) Allan Kardec escreveu sobre a possessão: “Para nós, a possessão seria um sinônimo de subjugação. Se não adotamos esse termo, foi por dois motivos: primeiro, porque implica a crença em seres criados e votados perpetuamente ao mal, enquanto apenas existem seres mais ou menos imperfeitos e todos podem melhorar; segundo, porque pressupõe igualmente a ideia de tomada de posse do corpo por um Espírito estranho, uma espécie de coabitação, quando só há constrangimento.”

Mas não demoraria muito tempo, foi, também, na Revista Espirita de dezembro de 1863, Um Caso de possessão (Senhorita Julia) (4), quando narrou o caso da sonâmbula Sra. A, que de repente mudou de voz tomando atitudes absolutamente masculinas,  isso fez com que Kardec muda-se de opinião em relação a possessão, levando-o, logo no primeiro parágrafo desse artigo a escrever de maneira contundente o seguinte:

“Temos dito que não havia possessos, no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito errante a um encarnado.”

Vale lembrar o que diz o codificador da Doutrina Espírita no livro A Gênese conforme o Espiritismo, cap. I. item 14: “...o Espiritismo é uma Ciência de observação e não o produto da imaginação.” E ainda nesse mesmo capítulo no item 55: “O Espiritismo, marchando com o progresso, não será nunca extravasado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro sobre um ponto ele se reformulará sobre este ponto; se uma nova verdade se revela, ela a aceita.” (4)

Sendo assim, agora podemos continuar observando a descrição que faz sobre o caso da Revista Espírita tratado acima: “Apoderando-se do corpo da sra. A..., não tinha qualquer intenção má; assim aquela senhora nada sofria com a situação, a que se prestava de boa vontade. É bom dizer que ela não o havia conhecido e não podia saber de suas maneiras. É ainda de notar que os assistentes nele não pensavam, a cena não foi provocada e ele veio espontaneamente.

Aqui a possessão é evidente e ressalta ainda melhor dos detalhes, que seria longo enumerar. Mas é uma possessão inocente e sem inconvenientes.” (O grifo é nosso.)

A partir daí, o codificador, passa a incluir a possessão nos processos mediúnicos (no caso dos bons Espíritos) e de curas (no caso dos Espíritos inferiores ainda voltados ao mal): “Não vendo senão o efeito, e não remontando à causa, eis por que todos os obsedados, subjugados e possessos passam por loucos desta natureza e que seriam facilmente curados se não obstinassem a neles ver apenas uma doença orgânica.” (O grifo é nosso.)

Nesse mesmo artigo Kardec relata um outro exemplo observado pessoalmente por ele e que foi objeto de um estudo sério na Sociedade Espírita de Paris. Foi o caso da senhorita Julia, uma doméstica nascida na Savole, com vinte e três anos de idade, que a seis meses vinha tendo crises de um caráter estranho e que ocorriam sempre no estado sonambúlico. Lutava com um espírito que acaba sempre vencendo e que o denominava de Fredegunda: “Toma! toma! é bastante, infame Fredegunda? Queres me sufocar, mas não o conseguirás; queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei.”

Neste caso de possessão, porque se percebeu ter chegado o momento necessário de lidar com o Espírito possessor, Fredegunda, através da evocação. Evocada, em princípio, com ideia fixa de reencarnar-se, repeliu a solidariedade que lhe foi oferecida, recuou ante o nome de Deus, por isso, teve dificuldade de elevar o pensamento e orar, mas no intervalo das evocações em que foi chamada por vários dias pelos que estavam encarregados de a instruir, houve um fato positivo, é que conforme o Espírito Fredegunda foi sendo orientado, a Senhorita Julia, consequentemente, foi deixando de ser molestada até que a possessão cessou por completo. (6)

Em se tratando da possessão escreve Kardec no livro A Gênese (7): “Na possessão, em lugar de agir exteriormente, o Espírito livre se substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; faz eleição de domicílio em seu corpo sem que, contudo este o deixe definitivamente, o que não pode ter lugar senão com a morte. A possessão é, pois, sempre temporária e intermitente porque um Espírito desencarnado não pode tomar definitivamente o lugar e dignidade de um Espírito encarnado, ...”.

Mostrando a diferença entre obsessão e possessão ele escreve in A Gênese (8): “A obsessão é sempre uma ocorrência de um Espírito malfeitor. A possessão pode ser a atuação de um bom Espírito que quer falar e, para causar maior impressão em seu ouvinte, toma emprestado o corpo de um encarnado que este lhe empresta voluntariamente como se emprestasse sua veste. Isso se faz sem nenhuma perturbação nem mal estar, e durante este tempo o Espírito se encontra em liberdade como no estado de emancipação, e, mais frequentemente ele se coloca ao lado de seu reintegrante para escutá-lo.” Em continuação diz ele: Quando o Espírito possessor é mau, as coisas se passam diferentemente; ele não toma emprestado o corpo; ele se apodera, se o titular não possuir uma força moral para lhe resistir.”

Concluindo este estudo deixamos aqui estas palavras de Kardec (9): “O Espiritismo, fazendo conhecer esta fonte de uma parte das misérias humanas, indica o meio de remediá-las; este meio é o de atuar sobre o autor do mal que, sendo um ser inteligente, deve ser tratado com inteligência.”

NOTAS:

(1) Resposta à pergunta 473 de O Livro dos Espíritos (Allan Kardec).

(2) Resposta à pergunta 474 de O Livro dos Espíritos (Allan Kardec).

(3) Ver Allan Kardec, Revista Espírita, outubro de 1858, Obsedados e Subjugados.

(4) Ver Allan Kardec, Revista Espírita, dezembro de 1863 e janeiro de 1864, Um Caso de possessão (Senhorita Julia)

(5) Ver Allan Kardec, A Gênese, cap. I, Caracteres da Revelação Espírita.

(6) Ver Allan Kardec, Revista Espírita, janeiro de 1864, Palestras de Além-Túmulo - Fredegunda http://www.aeradoespirito.net/RevistaEspHTML/UM_CASO_POSSESSAO.html

(7) Ver Allan Kardec, A Gênese, cap. XIV, Os Fluidos, Explicação de alguns fatos reputados como sobrenaturais, item 47.

(8) Ver Allan Kardec, A Gênese, cap. XIV, Os Fluidos, Explicação de alguns fatos reputados como sobrenaturais, item 48.

(9) Ver Allan Kardec, A Gênese, cap. XIV, Os Fluidos, Explicação de alguns fatos reputados como sobrenaturais, item 48.

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